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A NECESSIDADE DE UM NOVO DESENHO DO SETOR JOALHEIRO



Julio César da Silva*



O novo conceito de produto provavelmente não está claro ao setor, e assim todos os pontos até aqui analisados dificilmente serão observados pelas empresas (indústria e varejo) e, principalmente, a cadeia produtiva sofre e sofrerá ainda por algum tempo, até que ela própria, ou pelo sofrimento ou por sua educação, possa vir a desenhar seu novo modelo.

O conceito de produto, não pode apenas ser visto como uma transformação de ouro, pedras e outros materiais em jóias, mas quero crer que deva também observar conceitos na análise psicológica. O pesquisador e escritor Alvin Toffler (1980) relata o surgimento da Primeira Onda há 10 mil anos, com a descoberta da agricultura. A Segunda Onda estabeleceu há 300 anos o desenvolvimento da produção em massa, e assim ocorreu a revolução industrial, e agora com a Terceira Onda vamos ter que lidar com o ser humano, que não só necessita de alimentos e produtos, mas de qualidade de vida.


Velho Modelo


Novo Modelo

O nosso modelo atual setorial, basicamente na Segunda Onda sofrerá um grande impacto, e provavelmente no atual e futuro cenário, algumas empresas não sobrevivam utilizando as regras do passado. É necessário urgentemente desenharmos um novo modelo ao setor joalheiro como um todo, senão toda a cadeia produtiva estará comprometida, e nossos concorrentes agradecerão. Este novo formato exige um arrojado desenho, onde o cliente não mais apenas aguarde um novo produto, e nem tão pouco solicite apenas novidades, mas sim interaja com o processo.

Cenários desafiadores estão todos os dias na mídia, basta apenas saber fazer uma leitura para identificá-los, e assim aqui como em outros paises, estamos vivendo períodos de mudanças estruturais e ainda conflitantes, pois no âmbito político grandes indecisões cercarão o governo atual até o final de seu mandato. As dificuldades no poder de compra - ocasionado pela acomodação das classes sociais (próximos 10 anos) e as novas necessidades das pessoas por outros valores - deixam as empresas querendo utilizar respostas do passado aos problemas atuais, apenas porque deram certo. Porém os novos desafios são presentes e diferentes.

Instaurado o conflito atual de identidade em um cenário anterior confortável, as empresas que não possuem um modelo definido de estratégias, fazem uso do velho modelo de investimentos em projetos de vendas, comuns ao setor. O frenesi da produção desenfreada de novos modelos, em uma canibalização (semestral) interna e, por parte do mercado, com pseudos novos produtos (criações) vão e voltam sem controle no significado do conceito pesquisa ou tendência, somada a produção de peças com teor adulterado na sobrevivência de pequenas empresas, e assim a informalidade do setor se faz presente e marca o ciclo com sua cruel realidade.

Neste ponto tenho uma visão muito clara da situação do setor, diante do cenário atual e futuro, tanto que já estou posicionando meus clientes para os fatos. O modelo atual da cadeia produtiva é totalmente próprio e interno, com pouca terceirização (profissional) interativa, onde competências não são destacadas e, por conseqüência, geram produtos de média e razoável aceitação, criando ciclos de curta duração, mesmo com todo o investimento realizado em design. Talvez melhor do que criar novos produtos, sem uma avaliação correta dos fatos ou mirabolantes ações de venda, seja a necessidade de um novo desenho em vender serviços, onde o mais importante seja rever nossas empresas e nossos métodos de gestão, identificando realmente qual seu modelo e que objetivos de resultados as mesmas têm.


Para poder entender melhor o que venha a ser o conceito do novo produto, quero citar a teoria de Abraham H. Maslow (1965), que identificou a necessidades básicas de um ser humano, e com base em sua teoria quero fazer um paralelo em como as organizações inteligentes desenvolvem seus produtos. Na teoria de Maslow, as necessidades psicológicas organizam-se hierarquicamente: só se tem uma motivação em determinado nível - e se as dos níveis anteriores se encontrarem satisfeitas. Quanto mais se sobe na pirâmide, mais as motivações são específicas do Homem e menor é o número de pessoas que as sentem.

Com a observação das necessidades do ser humano, podemos desenvolver produtos e serviços que não apenas atendam ao enquadramento do mesmo, como podemos agregar valor. Alguns alimentos, com uma estratégia de marketing e um visual (embalagem), criaram verdadeiras identidades com o consumidor, agregando valor com o status e a segurança na marca; outros produtos como roupas que atendem a questão da segurança, se tornaram verdadeiras obras de arte com sua marca, que são sinônimos de status nas classes sociais. E ainda existe uma infinidade de outros exemplos.

Buscamos reposicionar um produto - que, a meu ver, não perdeu lugar - com altos investimentos em marketing e em projetos de venda, que demonstram o desespero que o setor passa e por não encontrar respostas à atual situação do mercado, que há muito tempo vem dando sinal de que iria acontecer. Mas não paramos para perguntar quais mudanças não foram feitas, ou melhor, não quisemos fazer?

O setor como um todo é muito individualista, como é em geral a cultura brasileira. Enquanto em outros paises as dificuldades e as oportunidades unem, aqui verificamos que cada qual quer salvar seu queijo, e no fim não há para ninguém. Atualmente não basta ser um bom administrador dos seus negócios: é preciso ter competência em outras frentes como gerenciamento de pessoas, inclusão de sistemas de qualidade e atendimento diferenciado aos clientes.

Em uma economia globalizada, e na questão setorial nacional, não é possível mais ter apenas algumas boas empresas, mas sim que todo o setor seja competente, pois o setor exporta e não as empresas (como o Primeiro Setor no Brasil vem dando exemplos com a soja, suco de laranja e outros, equilibrando a balança comercial).

Algumas alterações a serem tomadas pelo setor joalheiro já foram definidas pelo cliente, porém como as empresas não estão preparadas para escutá-los,  identificando a jóia como um produto - pois também não sabem vendê-lo, continuam com o modelo de retirada de pedido ao invés de agregar serviços necessários ao mercado muito mais que propriamente só produto.

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*Julio César da Silva é joalheiro modelista (1974/1992), com especialização em Gestão da Qualidade (Programa Brasileiro de Qualidade/Produtividade) na Fundação Carlos Alberto Vanzolini (USP - 1993) e Empreendedorismo e Gerência Pedagógica com ênfase em Joalheria (Scuola D’arte Mestieri di Vicenza-Itália-CNPq\IBGM – 1994); Pós-graduação em Gestão Avançada de Recursos Humanos (Instituto Nacional de Pós-Graduação-2003).
Diretor-presidente da JULIU’S Assessoria Comércio de Modelagem em Cera Ltda. (1995), empresa especializada em Assessoria e Consultoria para empresas joalheiras e no desenvolvimento de Prototipagem de Modelos em Cera e Metais; Coordenador na Implantação do Projeto (1999/2001) AMAGOLD BRASIL – Americas Gold Manufactures Association, onde ocupa atualmente o cargo de Diretor Executivo. Foi Consultor do "World Gold Council (1996/2001) para América Latina", em programas de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias de produção de jóias de ouro; Consultor credenciado ao SEBRAE (1996/2000) para desenvolvimento de Programas para Qualidade Total.
julius.s@terra.com.br