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TECNOLOGIA E DESIGN

CONSTRUÇÃO DE ORIGINAIS


Patricio Alzamora *


agosto / 2009

Trataremos nesta oportunidade sobre a construção manual de joias ou protótipos.

Desde os primórdios da humanidade, a ornamentação do corpo tem sido uma constante, sempre associada a características místicas, religiosas ou culturais e, muitas vezes, significando o posicionamento hierárquico de quem a ostenta.

Trata-se do método de obtenção de originais mais barato e independente possível: um pequeno artesão, utilizando pouco equipamento e, principalmente, sua habilidade manual, consegue produzir uma peça pronta para a venda ou para produção de cópias em um tempo que, segundo a minha experiência e a daqueles que conhecem sistemas de fabricação, é similar ou menor do que a produção por computador e depois com maquinário de prototipagem, seja este qual for. A diferença é que a peça já se encontra pronta para a venda, sem necessidade de esperar a conversão do protótipo em metal, acabamento e montagem que os sistemas digitais exigem, porém exige conhecimento e prática qualificada do artesão. Dificilmente este adquirirá o grau de maestria e eficiência necessária em um período menor do que três anos de prática constante - pela minha vivência, digo que são necessários pelo menos cinco para alcançar um grau adequado destas capacidades, independente do “talento” do artesão.

Em nosso trabalho, prestamos em nossos equipamentos os serviços de execução dos projetos criados por clientes e constantemente recebemos modelos defeituosos e incoerentes, por parte de pessoas que dominam programas de modelagem, mas não o trabalho manual de construção de peças.

Acontece que o computador continua sendo uma interface bidimensional, onde dificilmente se obtém uma visualização realista do objeto, além de desconhecer o que é possível aos nossos atuais sistemas de produção. Coisas que parecem belas e perfeitas na tela do computador podem não ser viáveis para produção: argolas que apenas encostam-se à peça, sem ter continuidade física; garras ou granitos aos quais as ferramentas com que serão fechados não têm acesso, sem ao mesmo tempo destruir ou marcar ou atravessar o componente adjacente; gargalos que impedem o fluxo de metal na fundição; componentes ou partes nos quais é impossível dar acabamento e peças com peso muito acima do conveniente. Tenho visto protótipos de brincos adquiridos por clientes que pesariam 40 gramas cada um, o que além de ser incrivelmente caro, é impossível de usar.

É importante frisar que nosso trabalho não é artes plásticas. O artista deve "torcer o mundo" para realizar sua obra, enquanto o designer "torce seu desenho", tentando manter ao máximo as características artísticas, com o objetivo de realizar a obra. O designer é muito mais um técnico que um artista!

Quem tem experiência nesta área sabe que o designer explora durante toda a vida profissional algumas ideias-chave que se tornam características de seu trabalho e que podem ser reconhecidas. Alguns traços da obra de alguns designers são perfeitamente identificados como, por exemplo, os nós do Guerreiro, o repuxo floral de Georg Jensen, as joias incríveis de Dali, as texturas em sobreposição de Michael Zobel. Por mais que nenhum deles tenha inventado as técnicas que utiliza, fizeram delas instrumentos de inspiração para criação do que realmente interessa, que é a linha de produto e é isto que determina o sucesso.

Ao desenhar joias, é importante lembrar que está se projetando uma peça que deverá ser fisicamente produzida e que isto determina os limites da criação. Um exemplo prático é a parte de trás de joias em ouro, já que é necessário eliminar peso, por causa do altíssimo custo do material, resultando sempre em peças que ao serem cavadas em “baixo relevo” dificultam o acabamento. Com experiência de bancada, pode-se utilizar truques que melhoram em muito este aspecto da peça. Tomo como exemplo  a coleção Cabala (foto acima), que criei e executei para  Guerreiro: utilizei o recurso do “grafismo” em várias peças. Especificamente na joia que eu chamo de "72 nomes de Deus", repeti o desenho da frente, só que desta vez em alto relevo, podendo assim deixar o fundo fosco por jateamento ou escovação e as sutis superfícies das letras puderam ser mais facilmente abrilhantadas com discos de feltro. Como é tradicional na ourivesaria, em  casos similares temos utilizado o logotipo do cliente para criar um efeito de papel de parede que, além de facilitar o acabamento, reforça a identidade visual do produto, fixando a marca na mente do consumidor, assim como faz magistralmente Louis Vuitton, repetindo infinitamente seu monograma.

Serão estes recursos que garantirão a sobrevida das empresas de joias no futuro, pois pretender concorrer baseando-se apenas no preço, quantidade de pedras e leveza da joia não é suficiente. Apenas o design fornece o melhor argumento de venda: originalidade e beleza. Deve ser duro ouvir de um cliente que este já viu a mesma peça em outros lugares, ou ainda ver o mesmo anel de alguma revista copiado por várias empresas e oferecido na mesma feira. Porém, quando o produto é realmente de sua criação, isto não ocorre. As empresas de joalheria devem se converter cada vez mais em grifes que assinam e, efetivamente, criam seus próprios produtos. É melhor o cliente comprar por ser um produto de uma marca na qual ele confia e com a qual se identifica esteticamente.

Roupas de grife são adquiridas por seu cliente, apesar de ser possível achar imitações delas por um custo notavelmente menor. Ele se torna fiel à marca, baseado na percepção de que o produto tem qualidade, originalidade e que, enfim, pertence a uma categoria superior e por isso merece o investimento.

Lamentavelmente, observamos nos últimos anos que algumas das empresas que tinham conseguido isto, no Brasil, convertendo-se em verdadeiros ícones da indústria joalheira, cometeram o erro de abandonar esta prática e cair em modismos, recorrendo a celebridades para assinar linhas de produtos, que tiveram venda exígua e que, em sua maioria,  mostraram ser peças inexpressivas e sem originalidade, além de algumas serem até pré-históricas, cujo design já é patrimônio da humanidade e as quais ninguém deveria assinar como autor, sequer tê-las modificado.



*Patricio Alzamora - Chileno, artesão em metais desde os quatorze anos de idade, estudou antropologia, foi dono de fábrica e loja no Chile. Criou e iniciou os cursos de joalheria do SESC–Pompéia e da FAAP, foi professor no Sebrae, SESC e IED. Realizou palestras em Associações de Joalheiros e Feiras de Tecnologia para Joalheria, fazendo demonstrações de equipamentos (Foredom, 3M), além de assessorar tecnicamente fabricantes por todo Brasil. Atualmente cria e modela peças para designers, empresas e público em geral, além do ensino de design de joias e tecnologias utilizadas em joalheria em sua própria escola, o Atelier Alzamora.
Contato:
patricioalzamora@uol.com.br / www.atelieralzamora.com.br

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